quinta-feira, 8 de novembro de 2007
Canção da América
Eis que, cansada de tudo, pego o CD da Elisa Regina que meu professor de voz me emprestou. A idéia era treinar uma música, “Aos nossos filhos” (não confundir com “Como nossos pais”), mas não consegui me fixar no exercício. Abri, aleatoriamente, as outras músicas. Chego na motivação do post: “Canção da América”.
Tem algumas músicas que seguem a nossa vida de forma muito particular. Ouvimos na infância, ela faz algum sentido para nós, que crescemos e cansamos de ouvi-la, e ela perde o sentido, cai num lugar-comum; então, depois de alguns anos no esquecimento, ressurge a música, trazendo um novo sentido. É como se ela crescesse com a gente (imagenzinha tola, huh?). “Canção da América” foi uma delas.
E especialmente hoje fez um sentido enorme pra mim. Prometi, com muito prazer, um post de aniversário para duas amigas minhas, mas não sabia o que escrever. Somos amigas há tantos anos, já nos falamos tanta coisa e nossa amizade anda tão em paz, que eu não conseguia mesmo achar o que dizer. Uma delas está indo pra América... mas não é por isso que falo sobre a música ou sobre minhas amigas. É porque essa música me lembra a infância e me dá uma paz igualzinha a que sinto quando estou ao lado dessas minhas amigas. E é porque existe uma frasezinha banal, batida, overrated, mas que eu quero citar aqui: “Amigo é coisa pra se guardar/Debaixo de sete chaves/Dentro do coração...”.
Vocês estão, pra sempre, no meu coração.
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Iracema
A qual brasileiro não é familiar essa frase do romance? Ao menos a personagem-título é conhecida por qualquer cristão (ou não) que tenha passado pelo ensino fundamental neste país. Ora, professores de literatura insistem (e com certa razão, vá lá) em indicar José de Alencar para suas crianças.
Fato é que eu, hoje estudante de Letras, nunca havia lido nenhum romance do grande autor romântico (!). Já tinha folheado o Ubirajara, por obrigações escolares, mas nenhuma leitura completa, que dirá atenciosa. Pois eis que, no 4º período da faculdade, indicam-me o livro – Iracema, lenda do Ceará. Qual jeito? Tomei-o a ler.
Tenho certo medo das minhas palavras aqui, mas vamos lá – brincar um pouco com esse fardo romântico na história literária, que deverei ensinar e indicar para meus futuros alunos.
Pois na serra que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema, a virgem dos lábios de mel. Culpa não tinha de ser a virgem escolhida por Tupã (divindade), mas pela sua cultura deveria manter sua condição para o deus. Até que chega à tribo o único branco que faz parte do romance, o tal Martim. Obviamente, os dois se apaixonam. Obviamente, ela mais do que ele. Pobre coitada, inocente, entrega-se ao guerreiro. E o que é pior: sem o consentimento dele. Mistura lá suas ervas da Amazônia, digo, do Ceará, e deixa Martim doidão. Fazer o quê? Tá na chuva, é pra se molhar... né?!
Fogem os dois, pois Iracema violou lei grave na sua tribo: terá de morrer. E Martim mais grave ainda, pois pegou a virgem de seus hospedeiros.
No caminho, encontram Poti, amigo (affair, sem dúvidas) de Martim, da tribo inimiga da tribo de Iracema. Surpreende-lhe o affair? Pois me diga que tipo de amigo foge junto com um casal em lua de mel? “Irmão”... pfff! O livro mostra é um belo triângulo amoroso. E nos moldes contemporâneos.
Não importa. Ficam os três vivendo juntos. Iracema engravida. Martim começa a sentir falta da pátria (deixara uma noiva em Portugal, o canalha) e a cansar-se de Iracema. Pobrezinha, a dos lábios de mel! Abandonou a família, brigou com pai e irmão, fugiu da tribo, para viver junto de um branco safado! E tem mais! Martim vai para a guerra com Poti, que o aconselha a não avisar nada a Iracema, apenas deixar um sinal de uma flecha. Pobre Iracema... deu sozinha à luz Moacyr, o filho da dor. Deu dois suspiros e depois morreu. Tá, os suspiros são por minha conta. Fato é que morreu. E Martim e Poti voltaram. Martim vai para sua terra e retorna ao Brasil quatro anos depois. E o livro termina com uma frase digna de livro auto-ajuda: “Tudo passa sobre a terra”.
Não me vem outra forma de descrever o romance senão algo meio “Pocahontas”. O vocabulário, as descrições, a temática. Esse romancezinho romântico, escorrendo mel (ãhn, ãhn). Dizem ser alegoria para a formação do Brasil. E Iracema é anagrama de América. Mas isso eu deixo pras aulas de literatura. Basta-me hoje essa descrição livre do enredo. Leiam; é um clássico.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
A não-função da arte
Desde que o samba é samba, desde que o mundo é mundo, desde que o homem é homem, a arte está presente nas civilizações. Seja no canto de adoração a divindades (que, a propósito, também estão presentes em todas as civilizações), seja em representações pagãs, ela faz parte do ser humano. E não há quem consiga viver sem ela. Que me contrarie o advogado, de terno e gravata, dizendo que o mundo é sério. Duvido que não escute uma música no seu mp3 player. E me contrarie o mendigo, dizendo que a vida é dura. Duvido que não pare na Praça Sete pra ver o violeiro cantar as saudades. É do homem.
Mas qual é, afinal, a função da arte? Por que algumas pessoas, sem perspectiva financeira, sem apoio da família, sem garantias de estabilidade, largam tudo para viver de arte?
Questão fundamental para quem deseja ser profissional da área, mas que não me atrevo a responder em um post. Talvez nem em uma vida inteira.
Sei que a arte humaniza, sensibiliza, nos leva de volta a uma dimensão humana - que temos perdido cada vez mais neste mundo de terno, gravata e mendigos. Uma dimensão transcendental, ouso acrescentar. Religare. A arte-religião. A arte-função, sem lugar, sem valor capital. A arte que entende o vazio, que o mostra, potencializado. A arte da catarse. A arte que o artista faz pra viver tudo de uma vez, intensamente. Que terno e gravata é pouco pro humano. Que mendigos são a nossa fraqueza, e precisamos ver pra lembrar.
Mas, acho que, no fim das contas, a arte que vale a pena é aquela que não pretende nada, senão ser arte. E isso já basta.
Ansioso e frenético
Ânsia sf. 1.V.Angústia.
Angústia sf. 1. Grande ansiedade ou aflição; ânsia, agonia. 2. Sofrimento, atribulação.
Ansiedade sf. Estado afetivo em que há sentimento de insegurança.
Frenético adj. Quem tem ou revela frenesi.
Frenesi sm. 2. Grande excitação ou agitação.
Descrições breves, encontradas no Aurélio de bolso. Palavras comuns, encontradas no homem moderno.
Traduzindo:
É o que se sente no trânsito da cidade às seis e meia da tarde, quando se tem - e frequentemente se tem - um compromisso às sete.
terça-feira, 16 de outubro de 2007
Para não falar das coisas
Quem não gosta de um trocadilho bem feito? De uma ironia na hora certa? Brincar com o nome das coisas é uma atividade prazerosa, mas também requer um trabalho apurado de linguagem. E não é feito apenas por literatos, não! A Polícia Federal é um dos órgãos mais especializados na arte de fazer aqueeeele trocadilho.
O assunto é batido e, provavelmente, já chamou sua atenção. Mas dificilmente você foi tão a-toa ou curioso para procurar os nomes das operações da Polícia Federal e questionar-se sobre eles. Eis o meu post do dia.
Percorro a lista de operações no site da polícia federal e já no início do ano de 2007 encontro nomes que chamam a atenção. A primeira que merece menção é a operação “Senhor dos Anéis”. Pensa você que é algo relacionado à pirataria de DVDs do blockbuster? Talvez alguém que vendesse anéis roubados? Nada disso! Diz a breve descrição do site que a operação foi contra falsificadores de anilhas para pássaros canoros da fauna brasileira. Got it?
Na lista de 2006, paro no nome “Control + Alt + Del”, que investigou o roubo de senhas bancárias através da internet. Eu daria o nome de operação “Ctrl + c”, mas o caso era mais grave. Não tinha solução mesmo, só dando um Control + Alt + Del. No mesmo ano, a operação “Oráculo” investigava fraudes em concursos públicos e vestibulares de medicina. O candidato sabia de todas as respostas, era praticamente um oráculo, daqueles de tragédias gregas. Ãhn, ãhn!
Mas o melhor nome que encontrei, na minha rápida busca, foi Macunaíma. O herói sem nenhum caráter. O retrato do brasileiro. Na operação, servidores públicos estavam envolvidos num esquema de contrabando. Mas não importa. Importa que o nome é bom. Valeria pra qualquer outra operação. É um nome assim, genérico. Como estudante de Letras e amante do bom trocadilho, devo parabenizar a Polícia Federal pelo excelente trabalho lingüístico que tem feito. Pelas pistas que recolhi nas listas, a Polícia está no caminho certo! Um país cheio de ironias. Porque um dia a gente cansa de falar das coisas, e começa a falar do nome delas...
+ Resumo de operações da PF
+Curiosidades sobre os nomes das operações da PF
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A propósito de nomes e trocadilhos, hoje vi uma frase num muro que me fez rir – alto e sozinha no meio da rua, é válido acrescentar.
“Dizem que o Bush é bicha”
Dizem.
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Deletei-me do Orkut
“Deletei o meu Orkut”. Essa frase sempre tem algum impacto para quem ouve – negativo ou positivo. A mim, sempre soou um pouco distante. Apagar o Orkut, moi? Never. Estava na rede de comunicações desde o início, lá pra 2005, se não me engano. Fui praticamente uma das primeiras amigas do próprio Orkut! (tudo bem, não exageremos!)
Fato é que sempre me pareceu impossível sair da rede (caiu, é peixe!). Lá estavam meus coleguinhas de 1ª série do ensino fundamental, meus amigos que hoje moram no exterior, meus amigos e colegas atuais, meus ex-namorados, meu chefe, enfim, praticamente todos os meus contatos. Lá estava a Flávia Almeida. Com um perfil modificado regularmente, com algumas fotos de amigos, alguns vídeo legais, umas 35 comunidades que se encaixavam perfeitamente pra mim e que sempre me mostraram como o ser humano é igual, no fim das contas.
Por que, então, me deletei do Orkut?
Li, há algum tempo, no scrapbook de uma amiga, trechos do artigo “Identidades vazias” de Slavoj Zizec, colunista da Folha, que falava sobre a diferença das vidas real e virtual. Ele faz uma comparação entre o café descafeinado e a identidade virtual: ambos criam uma realidade privada de substância. Basicamente, o “eu” que apresentamos na internet é parcial; jamais nos limitamos apenas ao que apresentamos na rede. E, no orkut, criamos o nosso perfil, exatamente como queremos que nos vejam. O Msn Messenger ainda nos permite reações em tempo real (embora também tenha minhas ressalvas quanto a esse meio de comunicação). O orkut é relativamente fixo. O nosso perfil está lá, o dia inteiro, igual. Esteja eu feliz ou triste, ocupada ou à-toa, o meu perfil é apenas o que eu quero que vejam.
Muitos irão entrar fervorosamente em defesa da rede (caiu? É peixe!). Acalmem-se, orkuteiros de plantão. Eu sei muito bem que posso deixar meu perfil em branco e usar o orkut para o fim que eu quiser. Eu posso (na prática, pois na teoria é proibido) criar um fake. Eu posso nunca “fuçar” o perfil de ninguém. Eu posso entrar no orkut só nos finais de semana, só nos dias santos, ou sei lá o que. Mas me incomoda a idéia de um “eu descafeinado” solto por aí... e de ver tantos outros “eus descafeinados” como se fossem reais. No fim das contas, sou eu o problema. É a minha humanidade, a minha curiosidade, a minha inocência para usar o orkut. Por isso cometi suicídio virtual. E deixo aqui esta “carta” de justificativa. Sigam-me os bons. A sensação é de pura liberdade, embora algumas vezes eu solte um “uhhhh” (à la Homer Simpson quando percebe que cometeu um erro) quando lembro que só tinha contato com sei-lá-quem pelo orkut. Mas o bom do suicídio virtual é que tem volta.
Um dia eu volto, quem sabe...
domingo, 14 de outubro de 2007
'Sandy e Junior' e Fãs
Nada mais oportuno que um show de Sandy e Junior no dia das crianças. O último da dupla, após 17 anos. Eu, com meus 20, acompanhei pelo menos uma boa parte da carreira dos dois. Atire a primeira pedra quem nunca gostou de uma música deles, quem ouviu as canções melosas e românticas e nunca se identificou com nenhuma delas e...
Ai! “Atire a primeira pedra” era só uma expressão!!!
Tudo bem, talvez vocês nunca tenham gostado, mas eu já gostei de Sanzi e Xúnior, ziiiim! E fui ao show, pra me despedir.
O problema foi que cresci. E essa história de fanatismo deixou de existir em mim. Definitivamente não consigo entender o desespero dos milhares de fãs que foram assistir à dupla.
Cheguei no lugar do show às 17h, sendo os portões só seriam abertos às 19h, e Sandy e Junior cantariam às 21h. Pasmem, havia uma fila considerável. Fico pensando quantas pessoas pararam a vida, deixaram de viajar no feriado, fizeram a família ficar em casa, e foram pra fila bem cedo, pra pegar um lugar bom na arquibancada – porque, afinal de contas, o espaço das mesas não era pra fãs, era pra elite.
Duas horas de fila me permitem algumas observações. Quem me conhece sabe que não sou homófoba; pelo contrário, frequentemente me vejo atraída por algum, digamos, gay. O primeiro comentário é apenas uma constatação: não existe homem fã de Sandy e Júnior. O segundo comentário é talvez um pré-conceito: da minha idade, poucas pessoas normais vão a um show de Sandy e Junior. Digo normais as que não compram anteninhas coloridas e ficam pulando e cantando músicas na fila do show. Essas, para mim, não são normais. E lá eram muitas.
No meio do show, eu lá, “de boa”, curtindo as músicas, quando eis que ocorre um fato bizarro. E inenarrável. Mas me atrevo a tentar. SeJ cantavam alegremente a música “Vamos pular”. E pulavam. O público pulava. Eu, cansada, movimentava, talvez, a cabeça. Eis a cena: um sujeito sobe na grade da arquibancada e PULA no palco. Cai antes. Ohhhhhhhhh (susto geral na platéia. Imagino uma vídeo-cessetada sendo filmada do meu ângulo, as vozes do lado - caiu – q foi isso? – ohhhh). Surge o homem, incansável, escalando o palco. Corre, agarra a Santinha, digo, Sandynha! Ela só percebe a presença quando o sujeito está a centímetros de seu rosto. O segurança pensa em separar; recua. “Sandy, eu te amo. Vou esperar para conversarmos depois do show” – “Tá” (algo foi dito, as falas aqui são por conta da minha imaginação). O segurança leva o rapaz. Eu fico rindo por uns 5 minutos.
Vou embora para casa, aliviada. Valeu a pena, afinal. Um post para o blog. Fãs da dupla, não se zanguem. Sandy e Júnior são bons, amadureceram, e talvez por isso mesmo estejam se separando. O problema são vocês. Vocês que não crescem e que insistem em voltar sempre na Maria Chiquinha. O raio da Maria Chiquinha que a própria Sandy diz ter que agüentar (!) há 17 anos. Sim, eles são bons.
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
das justificativas
Não tenho pretensões literárias com este blog (as tive alguma vez com alguma coisa?). Dúvidas? Leia o título.
Tenho pretensões dignas de uma pessoa sem identidade virtual (yeah, baby, deletei meu yakult!): gastar seu tempo livre na internet de alguma forma pouco útil.
E justifico a criação do blog pela data: 12 de outubro. Não, não criei o blog por ser dia das crianças! É feriado e estou em casa.
Justificado?
